
Agropecuária acumula 94% de vagas e impulsiona empregos no Sul de MG
Setor foi responsável por 18,7 mil dos postos de trabalho abertos na região.
Construção civil e comércio enfrentam déficit desde o começo de 2016.
06/07/2016 19h26 – Atualizado em 06/07/2016 20h20
Do G1 Sul de Minas
A agropecuária impulsionou a geração de empregos no Sul de Minas nos primeiros cinco meses do ano. Dos 19,9 mil postos de criados em 2016, 94% foram no campo. Outro setor no azul é a indústria. Já a construção civil e o comércio enfrentam déficit de vagas neste período.
Ao todo, foram pouco mais de 18,7 mil postos de trabalho gerados pela atividade rural. Mais da metade dessas vagas está concentrada em 15 municípios (Santo Antônio do Amparo,Guaxupé, Conceição do Rio Verde, Boa Esperança, Monte Belo, Machado, São Sebastião do Paraíso, Carmo da Cachoeira, Cabo Verde, Três Corações, Varginha, Botelhos, Carmo de Minas, Alfenas e Três Pontas). Alfenas se destaca ainda mais, com quase 1,5 mil vagas.
As vagas dos chamados safristas são temporárias e duram até o fim da colheita. Mas tem ajudado quem precisa de trabalho. “Sempre o que gira mais emprego nessa região nossa deTrês Pontas é ac colheita de café mesmo”, diz o trabalhador rural Francisco de Paula Victor da Silva, que era pedreiro, ficou desempregado e resolveu voltar para a roça.
Outras áreas
De acordo com o Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), de janeiro a maio, 2176 vagas foram cortadas no comércio. Poços de Caldas, com menos 374 vagas, e Extrema, que perdeu 274, tiveram o pior saldo.
“O comércio, por conta de ser composto em sua maioria por empresas pequenas, de pequeno porte, a alternativa que o empresário tem é de realmente buscar a adequação de seus custos, a realidade de vendas”, afirma o empresário Christiano Villas Boas.
A construção civil também passa por problemas e acumula uma baixa de 187 postos de trabalho. Os números só não foram piores porque algumas cidades continuaram com a mão na massa. Ijaci (MG) abriu 117 vagas e Três Pontas (MG) outras 109 vagas, sendo os municípios que mais geraram emprego nessa área, ainda conforme o Caged.
“Nós vamos perceber as famílias, os pais de família, seja pedreiro, seja servente, até mesmo no fluxo de serviço de um arquiteto, de um engenheiro, essa movimentação começa a cair. Aí você vai sentir no final dessa conta, que é a hora que chega no consumo”, explica Ísis Maiolini, consultora de recursos humanos.
Quem também ajudou a deixar a conta no azul foi a indústria. O setor surpreendeu e fechou o mês de maio com mais de 1,2 mil vagas de emprego. Santa Rita do Sapucaí (MG) foi a cidade que mais criou oportunidades na área, com 404 novos postos de trabalho.

Sete entre dez produtos exportados são do agronegócio
Dados divulgados pelo Ministério da Indústria, Comércio Exterior e Serviços (MICS) mostram que, no primeiro semestre de 2016, o Brasil obteve superávit de US$ 23,6 bilhões na balança comercial – valor dez vezes maior que o resultado apresentado no mesmo período do ano passado (US$ 2,2 bilhões). O crescimento do saldo comercial foi impulsionado principalmente pela queda de 27,7% das importações.
Apesar do resultado positivo no saldo da balança, o comércio externo do país tem apresentado forte desaceleração. Houve queda de US$ 29,6 bilhões na corrente de comércio do Brasil e retração de 4,3% nas exportações, conforme informações da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA).
O governo federal tem destacado o comércio internacional como uma prioridade para a recuperação econômica do país. O agronegócio tem sido o setor que mais contribuiu para o saldo comercial positivo nos primeiros seis meses de 2016.
O destaque pode ser observado na composição dos 10 principais produtos brasileiros exportados no período. A soja em grão, com receita de US$ 13,9 bilhões (+11%), aparece como o principal produto exportado, o açúcar em bruto, US$ 3,1 bilhões (+19%), em 4º, a celulose, US$ 2,7 bilhões (+7%), em 7º, e a carne bovina, US$ 2,2 bilhões (+6%), em 8º. Fora a lista dos ‘top 10’, há ainda outros importantes produtos que contribuem para o comércio exterior, como café em grão, farelo de soja e carne de frango.
No primeiro semestre de 2016, esses produtos trouxeram ao Brasil US$ 41,6 bilhões em receita, 46% do valor total. Dentre esses, sete são do agronegócio, US$ 29,9 bilhões (33,2%) do total das exportações brasileiras.
O crescimento das exportações de soja em grão tem sido puxado, principalmente, pelo aumento das importações chinesas. A demanda mundial pela oleaginosa está aquecida em consequência das perdas ocorridas nas safras do Brasil e Argentina, que geraram uma expectativa de baixa disponibilidade na próxima safra, estimulando sua compra no mercado internacional.
O aumento das exportações de açúcar também é influenciado pela valorização do preço mundial da commodity, devido a menor oferta e o aumento da demanda, o que deve gerar um déficit no ciclo atual. Outro fator que incentivou o crescimento dos preços foi a recente desvalorização do dólar em relação a moedas dos países produtores.
Apesar do menor crescimento da economia chinesa, a demanda por carne bovina de alta qualidade naquele país deve continuar aquecida no segundo semestre. Isso ocorre por que esse tipo de corte é demandado por consumidores de maior renda, que são menos influenciados pela desaceleração econômica.
A China, segunda maior economia mundial, foi o principal destino das exportações do Brasil no primeiro semestre de 2016, com receita de US$ 11,4 bilhões (17,2%). O país continua tendo um papel fundamental na balança comercial brasileira, principalmente em relação à demanda por produtos agropecuários.
Os dados apresentam um cenário com boas oportunidades para os produtores agropecuários do Brasil, principalmente devido à demanda aquecida e ao câmbio favorável. Desse modo, em 2016, o setor continua sendo um elemento chave para o desempenho da balança comercial do país.
CÂMBIO – Apesar da recente valorização do real – 19,9% no acumulado de 2016 – o câmbio tem contribuído para o aumento da competitividade dos produtos brasileiros no mercado externo. De acordo com as expectativas do mercado, publicada no Boletim Focus (BCB), em 2016 a taxa de câmbio deverá encerrar o ano por volta de R$ 3,50.

Novas tecnologias e desafios para o agro
Antônio M. Buainain
José Maria da Silveira*
Não é demais louvar o desempenho da agricultura brasileira nas últimas décadas. A combinação de disponibilidade de terras, empreendedorismo e ousadia do produtor rural, investimento público e privado em pesquisa e desenvolvimento e políticas públicas, que, embora erráticas, tiveram papel relevante, permitiu que o País se transformasse na potência agrícola que, sem dúvida, hoje é. A inovação – base do crescimento da agricultura – resultou de parcerias formais e informais entre organizações públicas de pesquisa e grandes corporações do setor, que transferiram, adaptaram e até desenvolveram tecnologia para o clima tropical. Parte do sucesso se deveu também a cooperativas e empresas, com suas redes de vendas e de assistência técnica. Palmas para o Brasil e para os brasileiros responsáveis por estas conquistas!
Silvio Crestana e Mauricio Lopes, respectivamente ex e atual presidente da Embrapa, têm alertado que, em um mundo movido por inovações cada vez mais rápidas e radicais, o sucesso no passado não é nenhuma garantia de sucesso no futuro. De fato, a agricultura está vivendo grandes transformações provocadas principalmente por desafios globais e mudanças institucionais relevantes que vêm sendo impulsionadas por pressões sociais relacionadas à qualidade (lato sensu) dos alimentos, às exigências ambientais, às relações de trabalho, à superação da pobreza rural e à inclusão social, assim como pelas próprias mudanças no meio rural, em particular as migrações e a maior interação campo-cidade. Mas é no âmbito da tecnologia e da inovação que as mudanças são mais radicais e ameaçadoras.
Há uma revolução da genética em curso: biologia sintética, edição de genes, genotipagem, uso generalizado de marcadores moleculares e biofortificação de produtos naturais que podem redefinir a competitividade dos países. A aplicação da tecnologia de informação, em particular o uso das informações armazenadas nos grandes bancos de dados e do GPS nos procedimentos mecanizados, a racionalização do uso de insumos, o rastreamento e monitoramento de processos produtivos, etc., estão se ampliando e terão implicações radicais sobre todas as etapas das cadeias de valor do agronegócio.
Todas essas inovações são baseadas em novas formas de gerar conhecimento científico e tecnológico, resultante de redes operando em escala global, envolvendo organizações públicas e privadas de pesquisa, empresas e ONGs, todas enquadradas em rígidos marcos institucionais que refletem os desafios globais mencionados. O fato é que as condições de produção estão sendo redefinidas e aquele que não for capaz de acompanhar as transformações corre o sério risco de perder o lugar.
Muito disto é bem conhecido por alguns estudiosos e líderes qualificados do agro brasileiro. Mas o sentimento é de que falta muito para que possamos atuar nas novas redes, enfrentar os desafios e desenvolver nosso potencial. Nossas universidades mais relevantes são paralisadas por greves irracionais e obscurantistas; instituições estaduais de pesquisa, ameaçadas pela falta de recursos e de visão de muitos governantes. Até a Embrapa está fragilizada pelo crescimento populista da última década, pela falta de foco e, principalmente, por uma governança refém da partidarização a que vem sendo submetida.
E o governo federal corta orçamento sem critério e amplia gastos com base em critérios duvidosos. A 20.ª conferência do International Consortium of Applied Bioeconomy Research(http://economia.uniroma2.it/icabr/conference-2016/) foi dedicada a discutir essas transformações em curso e os novos desafios para coordenar esforços e para evitar que a regulação se torne um obstáculo e não um fator favorável para a difusão de inovações. Apenas 4 acadêmicos brasileiros participaram. Será que estamos extasiados com nosso sucesso a ponto de só olhar para o nosso triste quintal? Ou já sabemos tudo e não precisamos nos preocupar com o futuro, que estaria garantido só porque repetimos que somos imbatíveis na agricultura e que o mundo precisa de nós para se alimentar?
*São professores do Instituto de Economia da Unicamp
Fonte: http://economia.estadao.com.br/noticias/geral,novas-tecnologias-e-desafios-para-o-agro,10000060994